O que é a Podologia?
A Podologia é a área da saúde que se dedica ao estudo, diagnóstico, tratamento e prevenção das patologias do pé e das suas repercussões no resto do corpo. O podologista é o profissional habilitado a tratar desde alterações simples da pele e das unhas até problemas biomecânicos que afetam a marcha, a postura e a distribuição de cargas.
Os pés suportam o peso do corpo ao longo de milhares de passos por dia. Quando algo não funciona corretamente — uma unha encravada, um calo mal posicionado, um apoio plantar desequilibrado — as consequências raramente ficam confinadas ao pé: repercutem-se nos joelhos, nas ancas e na coluna.
Quando devo consultar um podologista?
Muitas pessoas só recorrem à Podologia quando a dor já é limitante. Na realidade, há sinais que justificam consulta bem mais cedo:
- Dor ao caminhar, ao calçar ou ao apoiar o pé
- Unhas encravadas, espessas, deformadas ou com alteração de cor
- Calos e calosidades recorrentes, mesmo depois de removidos
- Verrugas plantares que não desaparecem
- Dor no calcanhar, sobretudo nos primeiros passos da manhã
- Dor na planta do pé, na zona anterior (junto aos dedos)
- Dedos que se deformam progressivamente
- Pele muito seca, com fissuras ou gretas nos calcanhares
- Alterações da marcha, desgaste assimétrico do calçado
- Diabetes — mesmo sem queixas, o acompanhamento podológico é recomendado
⚠️ Se tem diabetes, o cuidado com os pés é uma prioridade de saúde e não uma questão estética. A neuropatia diabética reduz a sensibilidade e pequenas lesões podem evoluir sem dor até se tornarem graves. O rastreio podológico regular é fundamental.
Patologias das unhas
Onicocriptose — unha encravada
A onicocriptose ocorre quando a lâmina ungueal penetra na pele adjacente, provocando dor, inflamação e, frequentemente, infeção secundária. É uma das causas mais comuns de consulta em Podologia.
Fatores que contribuem para o problema:
- Corte incorreto da unha — arredondar os cantos em vez de cortar a direito
- Calçado apertado ou de biqueira estreita
- Traumatismos repetidos — corrida, desportos de impacto
- Formato da unha e predisposição individual
- Hipersudorese e maceração da pele
Tratamento: Em fases iniciais, o podologista remove a espícula (fragmento da unha que penetra na pele) e orienta o corte e os cuidados adequados. Nos casos mais avançados ou recorrentes, realiza-se espiculectomia sob anestesia local — procedimento que permite remover a porção da unha responsável pelo problema com alívio imediato da dor.
Ortonixia — correção da curvatura da unha
A ortonixia é uma técnica que utiliza pequenos dispositivos corretivos (clips, fios ou lâminas) aplicados sobre a unha para corrigir progressivamente a sua curvatura excessiva.
Está indicada em unhas com tendência a encravar de forma recorrente, unhas em pinça ou em telha, e é uma alternativa conservadora que evita cirurgias repetidas. O tratamento é indolor e permite manter a atividade normal.
Onicogrifose — unhas espessas e deformadas
Caracteriza-se pelo espessamento acentuado e deformação da unha, que adquire aspeto de garra. É frequente em pessoas idosas, após traumatismos repetidos ou em situações de má circulação periférica.
Tratamento: Desbaste mecânico regular da lâmina ungueal pelo podologista, com fresagem controlada, aliviando a pressão e a dor e devolvendo à unha uma espessura funcional.
Onicomicose — micose das unhas
Infeção fúngica da unha, muito frequente e frequentemente subvalorizada. Manifesta-se por alteração da cor (amarelada, acastanhada ou esbranquiçada), espessamento, fragilidade e descolamento da unha.
Fatores de risco:
- Frequência de piscinas, ginásios e balneários
- Calçado fechado e transpiração excessiva
- Diabetes e imunossupressão
- Traumatismos ungueais repetidos
- Idade avançada — o crescimento ungueal mais lento favorece a infeção
Tratamento: Desbaste da unha infetada para reduzir a carga fúngica e permitir a penetração do antifúngico tópico, associado a orientação sobre cuidados de higiene e desinfeção do calçado. Nos casos extensos pode ser necessária terapêutica sistémica, articulada com o médico.
Patologias da pele do pé
Helomas — calos e calosidades
Os helomas resultam de pressão ou fricção repetida numa zona do pé. A pele responde espessando-se — mas esse espessamento acaba por criar um núcleo duro que pressiona os tecidos profundos e provoca dor.
Existem vários tipos:
- Heloma duro — o calo clássico, na face dorsal dos dedos ou na planta
- Heloma mole — entre os dedos, mantido húmido pela transpiração
- Heloma vascular e neurovascular — com vasos ou terminações nervosas no interior, muito dolorosos
- Heloma miliar — pequenos, múltiplos e superficiais
Tratamento: Remoção do heloma com material estéril pelo podologista — indolor quando bem executada. Mas remover o calo sem corrigir a causa garante que ele volta. Por isso a abordagem inclui sempre a identificação da origem da pressão: calçado inadequado, deformidade do dedo ou distribuição incorreta das cargas plantares, frequentemente corrigida com palmilhas.
⚠️ Os calicidas de venda livre contêm ácidos que atuam de forma indiscriminada sobre a pele saudável em redor. Em pessoas com diabetes ou má circulação podem provocar úlceras graves. Não devem ser usados sem indicação profissional.
Verruga plantar
A verruga plantar é uma lesão causada pelo vírus do papiloma humano (HPV), que penetra na pele através de microlesões. Ao contrário do calo, é uma infeção — e é contagiosa.
Como distinguir de um calo:
| Verruga plantar | Calo (heloma) | |
| Dor | À compressão lateral | À pressão direta |
| Aspeto | Pontos escuros (capilares) | Núcleo central homogéneo |
| Linhas da pele | Interrompidas pela lesão | Continuam sobre a lesão |
| Origem | Viral (HPV) | Mecânica (pressão) |
| Contagiosa | Sim | Não |
Tratamento: O tratamento é feito em sessões de controlo sucessivas, com desbaste da lesão e aplicação de agentes queratolíticos ou outros tratamentos tópicos, até à eliminação completa. Requer persistência — as verrugas plantares são conhecidas por exigirem várias sessões.
Patologias biomecânicas e da marcha
Fasceíte plantar e esporão calcâneo
A fasceíte plantar é a inflamação da fáscia plantar, a banda fibrosa que une o calcanhar à base dos dedos e sustenta o arco do pé. É a causa mais frequente de dor no calcanhar em adultos.
O sintoma característico é inconfundível: dor intensa nos primeiros passos ao levantar da cama, que alivia com o movimento e volta a agravar ao fim do dia ou após períodos parado.
O esporão calcâneo é uma calcificação óssea que se forma na inserção da fáscia no calcâneo. Frequentemente coexiste com a fasceíte, mas importa saber que muitas pessoas têm esporão sem qualquer dor — a dor vem habitualmente da inflamação da fáscia, não do esporão em si.
Fatores de risco:
- Excesso de peso
- Aumento súbito da atividade física ou da carga de treino
- Calçado sem suporte adequado do arco plantar
- Pé plano ou pé cavo
- Encurtamento do tendão de Aquiles e dos gémeos
- Profissões que exigem muitas horas em pé
Abordagem podológica: Avaliação da pisada e da biomecânica do pé, prescrição de suportes plantares personalizados para redistribuir as cargas e descarregar a zona dolorosa, orientação de alongamentos específicos da fáscia e da cadeia posterior, e aconselhamento de calçado.
Metatarsalgias
Metatarsalgia é a dor na região anterior da planta do pé, na zona das cabeças dos metatarsos — a área que suporta o peso durante a fase final do passo. É frequentemente descrita como a sensação de "andar sobre uma pedra".
Causas frequentes:
- Sobrecarga da região anterior do pé por alteração biomecânica
- Uso frequente de salto alto ou calçado de biqueira estreita
- Pé cavo — com aumento da carga na região metatarsal
- Perda da almofada gorda plantar, associada à idade
- Deformidades dos dedos que alteram a distribuição de cargas
- Neuroma de Morton
Abordagem podológica: Estudo da distribuição das pressões plantares e prescrição de suportes plantares com descarga seletiva da zona dolorosa, complementada por ortóteses de silicone e correção do calçado.
Dedos em garra e dedos em martelo
São deformidades dos dedos resultantes do desequilíbrio entre os músculos flexores e extensores. No dedo em martelo, a articulação intermédia flete; no dedo em garra, há flexão de duas articulações, dando ao dedo o aspeto de garra.
As consequências vão além do aspeto: o dedo deformado atrita contra o calçado, gerando calos dorsais dolorosos, e altera a distribuição das cargas na planta do pé, contribuindo para metatarsalgias.
Abordagem podológica: Nas fases iniciais, quando a deformidade ainda é flexível, as ortóteses de silicone interdigitais permitem reposicionar o dedo, aliviar a pressão e travar a progressão. Associam-se suportes plantares para corrigir a causa biomecânica subjacente. Nas deformidades rígidas e muito sintomáticas, a articulação com Ortopedia permite ponderar correção cirúrgica.
Pé boto e outras alterações estruturais
O pé boto (pé equinovaro) é uma deformidade congénita em que o pé se apresenta rodado para dentro e para baixo. O tratamento principal é ortopédico e iniciado precocemente na infância, mas o acompanhamento podológico ao longo da vida é importante para gerir as repercussões funcionais — alterações da marcha, zonas de hiperpressão, calosidades e necessidade de suportes plantares adaptados.
Ortóteses e suportes plantares
Ortóteses de silicone interdigitais
São dispositivos moldados individualmente em silicone, colocados entre ou sobre os dedos. Funcionam como um separador, protetor e corretor ao mesmo tempo.
Estão indicadas para:
- Dedos em garra ou em martelo flexíveis
- Proteção de calos interdigitais e dorsais
- Prevenção do atrito entre dedos sobrepostos
- Alívio de zonas de hiperpressão
- Correção de desvios ligeiros do hallux
A grande vantagem é serem moldadas diretamente sobre o pé de cada pessoa — adaptam-se à anatomia individual, ao contrário dos dispositivos genéricos de farmácia.
Suportes plantares — palmilhas personalizadas
Os suportes plantares personalizados são fabricados a partir da avaliação biomecânica e da moldagem do pé de cada pessoa. Não se confundem com palmilhas de conforto pré-fabricadas: têm objetivo terapêutico definido e são construídos para corrigir, compensar ou descarregar zonas específicas.
Principais indicações:
- Fasceíte plantar e dor no calcanhar
- Metatarsalgias e sobrecarga da região anterior do pé
- Pé plano ou pé cavo
- Assimetria de comprimento dos membros inferiores
- Prevenção de lesões no desporto
- Pé diabético — descarga de zonas de risco de ulceração
- Dor no joelho, anca ou coluna com origem na pisada
- Calosidades recorrentes por má distribuição de cargas
O processo inclui avaliação da marcha e da postura, análise das zonas de pressão, moldagem do pé e fabrico do suporte, seguido de consulta de adaptação para ajustes.
Como decorre a consulta de Podologia?
Primeira consulta (anamnese): Mais demorada e detalhada. Inclui história clínica completa, identificação de patologias associadas — em especial diabetes, doenças vasculares e reumatológicas — observação minuciosa do pé, avaliação da pele, unhas, sensibilidade e circulação, análise da marcha e do calçado. Termina com o plano de tratamento e, quando indicado, o tratamento imediato.
Consultas sucessivas: Destinam-se à continuidade do tratamento e à manutenção. Incluem o tratamento das lesões identificadas, reavaliação da evolução e ajuste do plano.
Consultas de controlo: Para situações que exigem sessões repetidas, como as verrugas plantares, com desbaste e aplicação de tratamento em cada sessão até à resolução.
Prevenção: cuidados diários com os pés
- Lavar e secar bem os pés, especialmente entre os dedos
- Hidratar a pele diariamente, evitando a aplicação entre os dedos
- Cortar as unhas a direito, sem arredondar os cantos
- Escolher calçado com biqueira larga, contraforte firme e altura de salto moderada
- Alternar o calçado entre dias, permitindo que seque completamente
- Usar meias de fibras naturais e mudá-las diariamente
- Utilizar chinelos em balneários, piscinas e ginásios
- Inspecionar os pés regularmente — sobretudo em caso de diabetes
- Não partilhar cortadores de unhas, limas ou toalhas
- Nunca tratar calos ou unhas encravadas com objetos cortantes em casa
Perguntas frequentes sobre Podologia
O tratamento de unhas encravadas dói? A remoção da espícula em fases iniciais é rápida e habitualmente bem tolerada. Nos casos que exigem espiculectomia, o procedimento é realizado sob anestesia local, pelo que não é doloroso — e o alívio após o tratamento é geralmente imediato.
Qual a diferença entre um calo e uma verruga plantar? O calo tem origem mecânica, dói à pressão direta e as linhas da pele continuam sobre a lesão. A verruga plantar é causada por um vírus, dói mais à compressão lateral, apresenta pequenos pontos escuros e interrompe as linhas da pele. São problemas diferentes e o tratamento também é diferente.
Porque é que os meus calos voltam sempre? Porque remover o calo não elimina a causa. Se a pressão que o originou se mantiver — por calçado inadequado, deformidade do dedo ou distribuição incorreta das cargas — o calo volta a formar-se. É por isso que a avaliação biomecânica e, quando indicado, os suportes plantares fazem parte do tratamento.
As palmilhas personalizadas são iguais às da farmácia? Não. As palmilhas de farmácia são genéricas e destinam-se sobretudo a conforto. Os suportes plantares personalizados são fabricados após avaliação biomecânica e moldagem do pé de cada pessoa, com objetivo terapêutico específico — corrigir, compensar ou descarregar zonas determinadas.
Tenho diabetes. Com que frequência devo ir ao podologista? Pessoas com diabetes devem ter acompanhamento podológico regular, mesmo sem queixas. A periodicidade depende do risco individual — presença de neuropatia, alterações circulatórias, deformidades ou história de úlceras — e é definida em consulta. O rastreio regular é uma das formas mais eficazes de prevenir complicações graves.
A micose das unhas tem cura? Sim, mas o tratamento é prolongado porque depende do crescimento da unha nova e saudável — o que pode demorar vários meses nas unhas dos pés. O desbaste realizado pelo podologista melhora significativamente a eficácia do antifúngico tópico ao reduzir a espessura e a carga fúngica.
Posso ir ao podologista só para manutenção, sem ter dor? Sim, e é aliás o cenário ideal. O acompanhamento preventivo permite detetar precocemente alterações da pisada, corrigir hábitos de corte das unhas, controlar calosidades antes de se tornarem dolorosas e prevenir problemas maiores.
A partir de que idade se pode consultar Podologia? Não existe limite mínimo. A avaliação podológica na infância é importante para identificar alterações da marcha e do desenvolvimento do pé numa fase em que a correção é mais simples e eficaz.
Podologia na Mondæcus Clínica Médica
Na Mondæcus Clínica Médica, em Montemor-o-Velho, a consulta de Podologia abrange o tratamento de unhas encravadas (incluindo espiculectomia sob anestesia local), ortonixia, unhas espessas, micoses ungueais, calos e calosidades, verrugas plantares, fasceíte plantar, esporão calcâneo, metatarsalgias, dedos em garra e em martelo, bem como o fabrico de ortóteses interdigitais de silicone e de suportes plantares personalizados.
A avaliação inicial permite identificar não apenas a lesão visível, mas também a causa que está por trás dela — porque tratar o sintoma sem corrigir a origem é a razão pela qual tantos problemas dos pés voltam sempre.
Sempre que a situação o justifique, o acompanhamento é articulado com as consultas de Ortopedia, Reumatologia, Dermatologia ou Medicina Interna disponíveis na clínica.



