Porque é que as alergias pioram na primavera?
Durante a primavera, a concentração de pólen no ar aumenta de forma muito significativa. As principais fontes de pólen em Portugal incluem gramíneas (as mais relevantes), oliveiras, ciprestes, plátanos, bétulas e outras árvores de floração precoce. A contagem polínica varia consoante a região geográfica, as condições meteorológicas e o ano.
Em pessoas sensibilizadas, o sistema imunitário identifica erroneamente o pólen como uma ameaça e desencadeia uma resposta inflamatória mediada por IgE — libertando histamina e outros mediadores que causam os sintomas típicos. Esta reação é chamada hipersensibilidade de tipo I ou alergia imediata.
Os dias secos, ventosos e com elevada insolação concentram mais pólen no ar — ao contrário dos dias chuvosos, que o lavam. As horas de maior concentração polínica são habitualmente a manhã e o início da tarde.
Sintomas mais frequentes — rinite alérgica e conjuntivite
A rinite alérgica polínica manifesta-se tipicamente com:
- Espirros repetidos em salva, muitas vezes logo ao acordar
- Rinorreia aquosa (nariz a pingar) ou congestão nasal
- Prurido nasal, palatino e faríngeo (comichão intensa)
- Conjuntivite alérgica: olhos vermelhos, lacrimejo e fotofobia
- Tosse seca ou irritativa por drenagem posterior (gotejamento pós-nasal)
- Sensação de ouvidos tapados por disfunção da trompa de Eustáquio
- Fadiga e dificuldade de concentração — frequentemente subestimadas
Em doentes com asma alérgica, a primavera pode desencadear ou agravar crises de broncospasmo, com tosse, pieira e dificuldade respiratória. A associação rinite-asma é muito frequente — estima-se que 40% dos doentes com rinite alérgica têm também asma.
Rinite alérgica vs. constipação — como distinguir?
| Característica | Rinite alérgica | Constipação viral |
| Início | Sazonal ou a contacto com alergénio | Após contacto com vírus |
| Secreção nasal | Aquosa, incolor | Mucosa ou purulenta |
| Febre | Ausente | Frequente |
| Prurido nasal/ocular | Muito intenso | Ausente ou ligeiro |
| Duração | Dias a semanas (sazonal) | 5–10 dias |
| Espirros | Em salva, repetidos | Ocasionais |
Quando realizar testes de alergia?
Os testes de alergia estão recomendados quando:
- Os sintomas são persistentes, recorrentes ou intensos e impactam a qualidade de vida
- Há necessidade de medicação regular para controlar os sintomas
- Existe dúvida sobre o agente causador — pólen, ácaros, pelos de animais, fungos
- Os sintomas surgem fora da época polínica ou de forma perene
- Os sintomas não melhoram com tratamento anti-histamínico habitual
- Está a ser ponderada imunoterapia (vacina para a alergia) — o teste é obrigatório para a sua prescrição
- Há suspeita de alergia alimentar, a látex ou a medicamentos associada
Como são realizados os testes de alergia?
Teste cutâneo por picada (Prick Test): É o exame de primeira linha, com elevada sensibilidade e especificidade. Realiza-se no antebraço: aplicam-se pequenas gotas de extratos de alergénios padronizados na pele e faz-se uma leve picada superficial com uma lanceta. A reação — uma pápula avermelhada semelhante a uma picada de mosquito — é avaliada ao fim de 15 a 20 minutos. É um exame rápido, seguro e praticamente indolor, podendo ser realizado a partir dos 2 anos de idade.
Análises ao sangue (IgE específica — RAST/ImmunoCAP): Doseamento dos anticorpos IgE específicos para cada alergénio no sangue. Complementam o prick test em casos selecionados — quando há contraindicação ao teste cutâneo (gravidez, medicação que interfira com a reação, dermografismo), ou para confirmação de sensibilizações múltiplas.
Teste de provocação nasal ou brônquica: Reservado para casos específicos em contexto especializado — confirma a relevância clínica de uma sensibilização identificada nos testes cutâneos.
Os testes são sempre interpretados pelo alergologista em conjunto com a história clínica — um resultado positivo isolado não faz diagnóstico de alergia clínica.
Como controlar os sintomas — opções terapêuticas
Medidas de evicção: Reduzir a exposição ao pólen é o passo fundamental. Manter janelas fechadas em dias de elevada contagem polínica (especialmente de manhã), usar óculos de sol no exterior, fazer higiene nasal com soro fisiológico após exposição e monitorizar as contagens polínicas diárias disponíveis online.
Anti-histamínicos orais: De segunda geração (cetirizina, loratadina, bilastina, rupatadina) — eficazes para espirros, prurido e rinorreia aquosa. Devem ser tomados de forma regular durante a época polínica, não apenas quando os sintomas surgem.
Corticoides nasais tópicos: São o tratamento de eleição para a rinite alérgica moderada a grave. Reduzem a inflamação da mucosa nasal com eficácia superior aos anti-histamínicos para a congestão. O efeito máximo obtém-se com uso regular — idealmente iniciando 1 a 2 semanas antes do início da época polínica.
Colírios anti-histamínicos ou cromoglicato: Para controlo da conjuntivite alérgica associada.
Antagonistas dos recetores dos leucotrienos (montelucaste): Úteis na associação rinite-asma.
Imunoterapia específica (vacina para a alergia): É o único tratamento modificador da doença — atua sobre a causa e não apenas nos sintomas. Administrada de forma subcutânea (injeções) ou sublingual (gotas/comprimidos), promove tolerância ao alergénio ao longo de 3 a 5 anos de tratamento. Indicada quando os sintomas são moderados a graves e os testes confirmam a sensibilização relevante.
Gravidade da rinite alérgica — classificação ARIA
| Classificação | Duração | Impacto na qualidade de vida |
| Intermitente ligeira | < 4 dias/semana ou < 4 semanas | Sem impacto significativo |
| Intermitente moderada/grave | < 4 dias/semana ou < 4 semanas | Com impacto no sono, trabalho ou lazer |
| Persistente ligeira | ≥ 4 dias/semana e ≥ 4 semanas | Sem impacto significativo |
| Persistente moderada/grave | ≥ 4 dias/semana e ≥ 4 semanas | Com impacto no sono, trabalho ou lazer |
A classificação orienta a intensidade do tratamento: as formas ligeiras podem ser controladas com anti-histamínico isolado; as formas moderadas a graves requerem corticoide nasal e eventual ponderação de imunoterapia.
Avaliação na Mondæcus Clínica Médica
Na Mondæcus Clínica Médica, em Montemor-o-Velho, a consulta de Imunoalergologia e Imunoalergologia Pediátrica permitem realizar uma avaliação clínica completa das alergias respiratórias e cutâneas, com realização de testes cutâneos por picada (prick test) no local e orientação terapêutica individualizada — incluindo prescrição de imunoterapia quando indicada.




